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    August 10

    Tú...

    Perdón, es muy difícil pedir
    Amor es mucho más difícil sentir.
    Llamarte solo en mís sueños,
    Volver encadena mí pecho.
     
    Pero, llorarte duele mucho más,
    Echarte de menos me hiere.
    No te quiero herir,
    Ní tampoco hacerte llorar.
     
    Te quiero llamar en la noche,
    Te apretar en mí sueños,
    Y jamás te dejar partir.
     
    Tu eres mí jardín,
    con flores que vuelen al viento,
    Y decoran mí alma
    Con las colores de la felicidad.
     
    Tu eres mí cielo,
    Donde viven las nubes
    Donde se acuesta el sol
    Y vuelen las aves.
     
    Mís ojos,
    Mí llorar,
    Mí despertar,
    Mí tesoro,
    Mí pecho,
    Mí mañana.
     
    Mí amigo, mí amor.
     
    July 20

    Sonho...

    Para M.
     
    Sonhei contigo
    No mar e na ventania
    Olhar de maresia
    Que me acalma o acordar
     
    Rompi as montanhas
    Atravessei umbrais
    Rasguei as entranhas
    Tolhi os vendavais
    Encontrei-te sem par
    Longe de mim
    Horizonte sem olhar
    Beleza sem fim
     
     Sonho meu
    Vivido sem ti
    Foi um sonho teu
    Vivido assim
    Na agonia
    Na desesperança
    Amargura do dia
    Na lembrança
    Do teu olhar
     
    E aqui te encontro
    Num olhar meu
    Perdido e só
    Rasgando o fel
    Bebendo do mel
    Do meu pó
     
    Aqui te encontro
    Meu regaço
    Meu sonhar
    Meu beijo de luar
    July 05

    Desespero

    Chegaste desespero! Olhaste em todos os rostos e todos negaste. Tocaste em todas as peles e todas te causaram arrepios. Penetraste todos os olhares e em nenhum te demoraste. Sentiste o calor de todos os corpos e a nenhum te entregaste. Sofreste no corpo as feridas da alma. Em todas moraste, e em todas permaneceste. Levaste para longe a vida sóbria e fácil, embebedaste-te, quiseste esquecer o porquê de amar, a razão para sentir. Ficaste só, amarrotado, demasiado maltratado para sorrir. Sobrou alguma parte de ti? Sobraram, as lágrimas que teimam em empedrar a alma. Sobraste tu, desespero.

    June 26

    Saudade

    Senti um arrepio, quase que um fio de tempestade a afagar-me as costas. Puxei o lençol um pouco mais para cima na esperança que o meu estremecer voasse. Assustei-me quando ela se deitou. Encarei-a, de frente, de olhos arregalados, quase lacrimejantes.
    - Sou a saudade! Estou aqui a teu lado. E vou estar, sempre, contigo.
    - Porquê?
    E foi aí que, pela primeira vez, senti o verdadeiro significado da palavra saudade. A força da ausência.
     
    A ausência do teu corpo de mel junto ao meu corpo de favo.
    A ausência dos teus lábios de rosa na união com o aroma da minha boca.
    A ausência dos teus braços de calmaria quando durante a tempestade me faltam as forças.
    A ausência da tua resposta de vento sempre que o calor me sufoca.
    A ausência do teu olhar de sol quando o meu se torna um olhar de lua.
    A ausência de uma alma quando o meu corpo sucumbe à dor.
    A ausência de ti. A tua ausência.
    June 24

    Noite

    Assim desce a noite: pobre e barulhenta na lentidão morna em que o sol se deita. Lentamente, todas as luzes se acendem e toda a cidade se povoa de pirilampos. No prédio, em frente, vêem-se famílias a chegar, e a seguir a habitual rotina do inicio da noite. Sinto-me estremecer, cada vez que a noite cai. O seu véu traz sempre a maior melancolia, a maior saudade e a maior dor. Combina-se em mim o negro, o frio, a solidão, a bruma. Sei que és tu que faltas aqui! Sei que és tu, ninguém mais, só tu! A luz do teu olhar sempre iluminou este espaço escuro. Os nossos olhares encontravam-se e faziam amor a noite inteira, sem que qualquer palavra fosse soletrada ou dita. Saberia quando entravas pela porta. Todo o ambiente se tornava menos inóspito. Aquecias o leito e ao sabor do teu coração adormecia, quieta e descansada. Sentir-te aqui, deitado, o teu mar a levar-me para longe, as tuas ondas a embalarem-me. Os teus sussurros eram marulhos doces que me enterneciam e amavam. Sabia que o dia iria nascer entre os nossos lençóis de paz e a lua se deitaria na cama do sonho. Agora, perdura uma cama de espinhos e o sol nasce cego. Caminho sobre uma nuvem, não piso a calçada. A noite sempre chega, sempre esteve cá, e sempre estará…

    June 23

    Desalento - Vinicius de Moraes

    Sim,
    vai e diz
    Diz assim
    Que eu chorei
    Que eu morri
    De arrependimento
    Que o meu desalento
    Já não tem mais fim
    Vai e diz
    Diz assim
    Como sou
    Infeliz
    No meu descaminho
    Diz que estou sozinho
    E sem saber de mim

    Diz que eu estive por pouco
    Diz a ela que estou louco
    Pra perdoar
    Que seja lá como for
    Por amor
    Por favor
    É pra ela voltar

    Sim, vai e diz
    Diz assim
    Que eu rodei
    Que eu bebi
    Que eu caí
    Que eu não sei
    Que eu só sei
    Que cansei, enfim
    Dos meus desencontros
    Corre e diz a ela
    Que eu entrego os pontos

    Deserto

    Reflecte-se em mim a poeira seca do caminho. Procuro razões para levantar a cabeça e deixar o rosto acalmar o pranto. O coração definha e pesa, não o consigo manter por muito mais tempo dentro do peito. Se ao menos a tua sombra me beijasse por um momento e apaziguasse a dor. Mas não! As minhas lágrimas apagaram a tua presença e o teu rasto. Vingo-me a abrir as feridas que se prolongam para lá da alma, rastejando. Tento chegar ao abrigo, aberto nas muralhas, e encontrar  o sonho que destruí. Mas vultos atravessam-se no meu caminho. Errar torna-nos mais sábios, mais prudentes, mas, também, mais tristes. É difícil suportar a dor de sermos quem somos, de viver connosco, com a nossa sombra e com as decisões erradas que tomamos. Ficamos sós e liófilos.

    O sol queima-me a face com maior intensidade e o calor desértico que se sente leva-me à astenia. Conseguirei chegar a ti, beijar as tuas lágrimas e acalmar a tua dor? Conseguirás ver-me chegar, ao fundo do caminho, levantar-me e curar as minhas chagas? Eu sei que consigo, tenho forças para ti, porque a maior força situa-se no centro do peito.

    June 16

    O teu rosto II

    O teu rosto traz de novo as ondas do mar até mim,

    Volta na sua calmaria infindável.

    Toca-me o coração, e amolece a dureza dessa rocha.

    Perscruto o infinito e ele torna-se o próximo passo.

    Voltas a estar perto e a respirar o meu ar.

    Voltas a estar perto e a beber do meu sangue.

    Retiras a dor sem magoar

    Apaziguas a revolta atordoada do meu peito.

     

    O teu sorriso lambe o pranto da minha alma,

    O teu olhar ofusca as minhas lamúrias,

    Os teus lábios derretem o meu gelo,

    E a tua voz faz desabrochar o meu sorriso.

     

    E fico quieta a contemplar o teu rosto,

    Sabendo que sempre que o olho,

    Aconchego a alma e o coração ao teu porto seguro.

    E encontro todas as razões que prendem a ele

    Por tempo indefinido e indeterminado,

    O teu rosto traz-me de volta, por momentos.

     

    June 04

    Solidão...

    "Solidão é quando nos perdemos de nós mesmos e procuramos em vão pela nossa alma" (Chico Buarque)
     
     
    Vives em mim devagar, em silêncio. Bradas alto aos céus a tua vitória inconfundível. Poderias ser um relâmpago que risca os céus e morre depois, mas não. Quando chegaste, passaste a viver comigo. Um viver quase suportável! De inicio, era uma delícia ter-te por perto. Vivia contigo numa coexistência pacífica. Brindávamos à liberdade e à beleza das coisas. Hoje, vivo em luta constante. Até onde pensas ir? Agrilhoaste-me o peito e corrompeste o que sou. Guardaste-me dentro de uma caixinha de música triste e penteaste os finos cabelos negros da dor. Precisavam estar perfeitos para te prendar todos os dias. Engoliste as lágrimas, como quem faz desaparecer o infinito. E vives cravada na minha carne, a ver romper a ferida, o sangue a escorrer, a dor a aumentar. E sempre que a tento apaziguar, colocando compressas de tempo, lembras-me, invariadamente, que estás aqui, a céu aberto, a viver ao meu lado. Tornaste o meu viver insuportável!
    May 30

    Al Berto - Trabalhos do Olhar

    Escrevo-te a
    sentir tudo isto...e num instante de maior lucidez
    poderia ser o rio as cabras escondendo o delicado
    tilintar dos guizos nos sais de prata da
    fotografia poderia erguer-me como o castanheiro dos
    contos sussurrados junto ao fogo e deambular trémulo com as
    aves ou acompanhar a sulfurica borboleta
    revelando-se na saliva dos lábios poderia imitar aquele
    pastor ou confundir-me com o sonho de cidade que a
    pouco e pouco morde a sua imobilidade........
    habito neste país de água por engano são-me
    necessárias imagens , radiografias de ossos rostos
    desfocados mãos sobre corpos impressos no papel e nos
    espelhos repara.....nada mais possuo a não ser este recado que hoje
    segue manchado de finos bagos de romã repara....
    como o coração de papel amareleceu no
    esquecimento de te amar.....
    May 23

    ...

    Filme de terror, talvez! Surrealismo no seu grau mais puro e amargo. Vultos. Gente imperfeita, distorcida e dengosa como se de fumo se tratasse. Árvores, melhor, ciprestes negros, plantados à beira de uma estrada que se dissolve no céu. Eu sou pequena, muito pequena. Estou de mãos e pés atados à beira de um penhasco horripilante. Mãos, muitas mãos tentam agarrar-me. Consigo dar passos de retrocesso, mas permaneço de pé. O vento é frio. Sinto os lábios gretarem e os cabelos a lamberem-me a cara sem que os possa afastar. As mãos desaparecem. Cai o breu. Surge a noite, com ela o gelo, o vazio. Perco a cor, torno-me quase transparente. À luz da lua sou, apenas, papel de arroz. Lentamente, esfarela-se cada bocadinho de vida dentro de mim. Copio olhares de estrelas e sigo, com o rosto, o trilho do nada. Grito poemas disléxicos e confusos, com plena convicção do seu sentido.

    O dia virá... quem sabe, um dia...

    May 19

    Para ti...

    Hoje vi-te. Já é raro ver-te. Vi-te, ao fundo da rua, a evitar olhar a minha presença inerte na paragem do autocarro. Não cruzámos os olhares, tal como fazemos há muito tempo. Foste uma passagem da minha vida. Uma página que se virou e que não ficou em branco. Marcaste-me e vou sempre lembrar-te. Mas, de ti, agora, apenas restam as fotografias. Lembro-me de uma vez me teres dito, com alguma frieza, que todas as pessoas se separam um dia. A amizade desvanece e dissolve-se. Os caminhos passam a ser paralelos, sem se voltarem a cruzar. Connosco aconteceu isso. Nessa altura, lembro-me que chorei e pedi-te para nunca me deixares. E, realmente, isso não aconteceu: deixámo-nos, abandonámo-nos mutuamente. Essa, talvez, tenha sido a maior lição que me deste, e a principal. Crescemos juntas. Beijámos, muitas vezes, as lágrimas uma da outra. Muitas vezes, compusemos conversas que não esqueceremos. Horas longas, muitos maços de cigarros. Muito poucas vezes, abraçaste-me e disseste-me: “ Ainda bem que estás aqui!”. Agora, que já não estou, espero que não sintas a falta do meu calor e do meu sorriso, que tantas vezes, te enterneceu. Vou-me embora, sem olhar para trás e sem, sequer te dizer adeus. Vou, apenas. Porque, talvez, me tenha tornado demasiado como tu. E tu viste a mutação. Vou, também, porque somos tão diferentes. Mas levo as nossas recordações comigo, apenas elas fazem sentido neste momento. Não choro, porque lágrimas para ti já não tenho. Demasiadas vezes, te VI, mas também, te PERDI de vista. Não estás sozinha, por isso ficarás bem. Lembra-te do rosto, apenas do rosto. Eu lembrarei o que tu foste ( a dureza de falar no pretérito perfeito).

    May 11

    Um dia a maioria de nós irá separar-se

     
     
     
    Este post tem, necessariamente, de ser dedicado às minhas almas. A todos
    aqueles que durante os últimos tempos têm estado ao meu lado. Rimos, choramos, sonhamos, trocamos confidências e murmúrios, pensamentos escondidos e vidas. Para a Laura, a Raquel, a Fifinha, o Hugo, o Fragoso, o Mário, o Tozé, a Raquel Penha, a Ana Santos, a Vera, a Carina, a Patricia. Bem hajam!
     
     
     
    "Sentiremos saudades de todas as conversas jogadas fora, das descobertas que
    fizemos, dos sonhos que tivemos, dos tantos risos e momentos que
    partilhámos.

    Saudades até dos momentos de lágrimas, da angústia, das vésperas dos finais de semana, dos finais de ano, enfim... do companheirismo vivido.

    Sempre pensei que as amizades continuassem para sempre. Hoje, não tenho mais tanta certeza disso.
    Em breve cada um vai para seu lado, seja pelo destino ou por algum
    desentendimento, segue a sua vida.

    Talvez continuemos a encontrar-nos, quem sabe...nas cartas que trocaremos.
    Podemos falar ao telefone e dizer algumas tolices...
    Aí, os dias vão passar, meses...anos... até este contacto se tornar cada
    vez mais raro.

    Vamo-nos perder no tempo....

    Um dia os nossos filhos verão as nossas fotografias e perguntarão:
    «Quem são aquelas pessoas?»

    Diremos...que eram nossos amigos e...... isso vai doer tanto!
    «Foram meus amigos, foi com eles que vivi tantos bons anos da minha vida!»

    A saudade vai apertar bem dentro do peito.
    Vai dar vontade de ligar, ouvir aquelas vozes novamente......


    Quando o nosso grupo estiver incompleto... reunir-nos-emos para um último adeus de um amigo. E, entre lágrima abraçar-nos-emos.

    Então faremos promessas de nos encontrar mais vezes daquele dia em diante.


    Por fim, cada um vai para o seu lado para continuar a viver a sua vida,
    isolada do passado.


    E perder-nos-emos no tempo.....


    Por isso, fica aqui um pedido deste humilde amigo: não deixes que a vida
    passe em branco, e que pequenas adversidades sejam a causa de grandes
    tempestades....


    Eu poderia suportar, embora não sem dor, que tivessem morrido todos os meus amores, mas enlouqueceria se morressem todos os meus amigos!"


    Fernando Pessoa
    May 08

    Desabafo

    Lentamente, consome-se o rosto decrépito e fraco na esponja das nuvens, nas tonalidades do olhar. Dissolvem-se em mim os momentos, os tempos. Espero-te aqui, no lugar do nada. Espero-te incessantemente, sem olhar, sem ver. Sem rumo, nem rota. E perco-me porque te espero, porque não te encontro. Sem lágrimas. Sem expressão. Agonia. Gritos. Sofrimento. Faltas tu! Falta o teu luar e o teu lugar. Faltam-me as palavras e preciso escrever. Faltam-me as lágrimas e preciso chorar. Falto eu... sou uma lacuna.

    April 27

    Trash Film Festival

    Apareçam no bar Última Sé no dia 3 de Maio para o Trash Film Festival.
     
    Filmes:
    Terente, de Dario Argento
    Cannibal Ferox, Umberto Lenzi
    Ilsa she wolf of the SS, Don Edmonds
     
    A entrada é livre. Para mais informações consultem:
     
     
     
    April 26

    Hoje... Eu

    Hoje, esqueci as metáforas, os eufemismos e as hipérboles. Vou romper o véu e falar de mim. Quem sou? Talvez alguém, talvez ninguém entre a multidão. Vivo com um sorriso no rosto e a alma presa em amarras de arame farpado. Perduro entre os distantes, os afogados da vida. Acordo com os membros atolados em lama e, aos poucos, tento mover-me desta prisão. Podem fazer-me perguntas. Olhar para o que escrevo e perguntar: “Quem és?” Direi, sem pressa: “Qualquer um de vós!” Sou as vossas inquietações ou a exposição a que, apenas, alguns aderem. Não tenho rosto, pelo menos não o conheço. Morro todos os dias um pouco. Vivo a planar sobre mim própria, observo-me a fugir de mim própria. Do que sou, do que fui, do que serei. O passado já não existe, o presente acabou de se dissolver e o futuro é já o momento seguinte. Escrevo sobre o amor e a desilusão. Podem pensar que sou uma romântica. Já o fui, deixei de o ser. Amor é, tão somente, uma outra palavra convencionada para sofrimento e, eu avisei desde o inicio que hoje não utilizaria metáforas. Espraio-me perante vocês porque não tenho palavras para mim. Navego na inquietude da vida, expectante e cansada. Gostava de poder esquecer. De voltar a conhecer o meu rosto. Gostava de poder encontrar o regaço onde assento o rosto e desfaço as rugas da ansiedade. Gostava de poder sentar-me na próxima pedra e descansar. Gostava de poder encontrar um porto seguro, aninhar-me e adormecer em paz. Uma só vez, por favor! Quero ter um rosto.

    April 17

    Farpas

    Sigo rio acima nesta traineira feita de tábuas insulares. Deixo para trás as vagas ondas do mergulho. Olho o horizonte perdido e vejo-te, ao fundo, à luz da clareira. Ténue, frágil, demasiado presente nesta tua ausência. Contemplo cada pedra que me leva até ti. Sabia que não partiria sem ti! Que não rasgarias no rosto os céus azuis e as estrelas cadentes. Que voltarias com prados verdes e florestas de açucenas. Que os oceanos trariam calma e os teus raios o sabor da primavera. Sabia que voltarias! Que amaciarias as tábuas de seda e perdoarias os abismos e as ravinas enxovalhados. Soubéssemos apagar as palavras já escritas e compôr uma nova canção, a jusante da nossa existência! Soubéssemos deambular pela vida, e beber do céu as estrelas faustosas e pertinentes que se impõem! Mas farpas, demasiadas farpas, ferem e acidificam o sangue. Pudéssemos retirá-las devagar, sem ferir, sem sangrar! Depois, lavar a dor na água deste rio e apaziguá-la com compressas de tempo. Pudéssemos dar as mãos e, eu, saltaria deste barco, desta jornada solitária, e juntaria as nossas peles de ar, aos nossos rostos de maresia. Sabia que voltarias, porque se há murmúrios que nunca se calam, esse murmúrio é o teu!
    April 11

    O lugar das palavras

    Encontraste-me no mar da flutuação das palavras, viste-me à luz dos parágrafos e prostraste-te sobre cada letra minha. Insistente, tentaste completar o puzzle de cada pedaço meu, perdido na aragem do texto.

     

    Letras

    Sílabas

    Palavras

    Frases

    Parágrafos

    Sentimentos…………..

     

    Sorves cada um à espera de me encontrares. Brinco contigo às escondidas, a ocultar-me por detrás deles. E respiras de mim. Não ames o que sou. Ama as minhas palavras. Aquelas que compõem o meu peito, que vigiam a tua noite, sustentam o teu respirar e vertem as tuas lágrimas. Ama a minha poesia, não o que está por detrás dela. Eu esventro-te e esbofeteio-te. Pede-me palavras, não o ídilio.
    March 25

    Floresta

    Não me olhes nos olhos. Não quero que vejas o arvoredo pastoso que povoa a minha alma. Sinto a fragmentação do vento dentro de mim. Cada lágrima é só mais uma gota de chuva que limpa o restolho de uma floresta nua e perdida.
     
    Não quero que sigas o meu rasto. Ou te percas nos subterfúgios escondidos nas bétulas e nos pinheiros seculares. O sol põe-se ao largo do horizonte. O compasso da brisa que passa move toda a magia, leva-a para longe. Em redor, saudade da habitual música dial, essa melodia apressada e violenta.
     
    Não tornes a tocar-me, ou a sentir o frio da noite a cair aqui. Seria demasiado doloroso para ti voltares a consumir a rugosidade da minha presença. São apenas árvores que compõem esta floresta. Demasiado inertes, demasiado ásperas e pouco luminosas.
     
    Não habites em mim... Sê apenas a água que cobre o pequeno riacho que se afasta no fundo do vale estreito e incólume.
    March 24

    Bebes de mim no clamor da noite

    Bebes de mim no clamor da noite
    Sem piedade ou perdão
    Bebes sôfrego e trôpego
    Um corpo manchado pelos lampiões da rua.
    Demasiado apagado e trémulo,
    Demasiado punido.
    Acendes estrelas apagadas
    Visitas céus de luar,
    Silêncios de cristal.
    Soubesses tu que a negridão agoniza
    Lentamente, sobre o céu lilás!
    Habituei-me a amar-te assim
    Percorrer o teu corpo de um trago
    E morrer nesse teu beijo sem fim.
    Deitar-me contigo
    E acordar com a minha solidão.